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Artigo | Transparência e segurança nas redes: como o Facebook coleta seus dados

Quem regula, de fato, aquilo que é publicado, apagado ou mostrado pelo Facebook a todos nós?

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Arquivo: Tela de smartphone exibe o logotipo do Facebook no fundo de um site do Facebook, em Arlington, Virgínia - OLIVIER DOULIERY / AFP

Em 2018, um escândalo ficou famoso por resultar, entre tantas tragédias, na eleição de Donald Trump nos EUA. Era o caso “Cambridge Analytica”.

A partir daí, teorias da conspiração e indignações como “o Facebook não espalhou esse conteúdo porque ele é de esquerda” ou “veja antes que o Instagram derrube” se tornaram cada vez mais comuns.

O problema de fundo é a falta de transparência no modo como funcionam as redes e na forma como os nossos dados são entregues ou vendidos e a quem. Quando o Facebook define quais informações podem ser coletadas e a que preço, também define qual o nível de transparência e fiscalização que a sociedade civil tem acesso.

O que são APIs e como coletam nossos dados

As APIs são como sistemas que possibilitam que duas plataformas conversem. Há muitos exemplos, desde um aplicativo no celular que acessa sua câmera até sistemas que permitem agendar postagens, obter relatórios de uso nas redes sociais ou mesmo abastecer grandes bancos de dados como foi o caso da Cambridge Analytica.

A primeira versão da API do Facebook surgiu em 2006. E à medida que as redes sociais ganharam notoriedade, os dados inseridos tornaram-se ainda mais valiosos. Foi neste contexto que, em 2010, o Facebook apresentou uma primeira versão da “Graph API”, uma revolução em termos de fornecimento de dados em larga escala.

Era a primeira vez que um sistema permitia converter perfis, curtidas, localizações e outros dados em objetos a serem trabalhados e se transformassem em produtos.

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A partir daí os problemas começaram. Uma vez que você autorizasse um aplicativo a coletar seus dados, ele poderia seguir com a prática sem qualquer obstáculo por anos sem que você soubesse.

Em 2013, o então professor da Universidade de Cambridge, Aleksandr Kogan, aproveitou-se disso para criar no Facebook um quizz de personalidade e coletar dados de milhões de pessoas. Esta coleta resultou no escândalo de 2018, quando um parlamentar britânico foi eleito – e posteriormente Trump, com a mesma prática.

Mais restrito, menos transparente

Em 2014, depois de permitir uma coleta quase ilimitada de dados por anos, o Facebook finalmente anunciou o fim da versão 1.0 da Graph API. A versão 2.0 proibiu a coleta de postagens públicas feitas a partir de perfis pessoais.

Isso ainda poderia ser feito, mas dentro do próprio Facebook. Funcionaria assim: você pediria as informações que deseja e ele entregaria tudo de forma agregada. Resumidamente é como se você pudesse ler o conteúdo mas não o perfil que o publicou, tendo que confiar na plataforma de Zuckerberg, sem acesso aos dados brutos.

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O sistema seguiu mudando, mas o controle das informações continua exclusivo até hoje. Neste contexto, quem garante que foram coletados todos os dados? Que não houve qualquer filtro ideológico anterior?

Um recado do Facebook: o caso Mlabs

Em junho deste ano, o mercado brasileiro de gestão de redes sociais passou por um susto. O Facebook sem aviso prévio excluiu cerca de 39 milhões de postagens de empresas, empreendedores e figuras públicas do Brasil, geridos pela plataforma Mlabs, maior empresa de gerenciamento de mídias sociais do país.

A Mlabs possui cerca de 300 mil clientes. Seu sistema permite agendar postagens nas mais diversas redes, como Facebook, Instagram e LinkedIn. Mas o Facebook considerou que a API da empresa infringia seus termos de uso.

Depois de alguns dias, a rede social reestabeleceu as postagens. Mas o caso demonstra como o Facebook ainda tem total controle do que é publicado sem qualquer tipo de fiscalização.

Em outras palavras, fica claro que Zuckerberg pode, sim, escolher alvos e apagar todas as postagens – seja de uma empresa ou, por que não, de um partido político ou figura pública, quando quiser.

Victor Amatucci é jornalista da agência Social Comunicação, que realiza projetos de comunicação para ONGs, movimentos sociais e entidades de Direitos Humanos.

Edição: Leandro Melito