Rio de Janeiro

Repercussão

Moradoras de favelas reagem a fake news sobre CPX no boné de Lula: "Criminalização do favelado"

A sigla CPX é usada por moradores e por órgãos oficiais para se referir a regiões do Rio com um grupo de favelas

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |
Circulam na internet fotografias de Lula com o boné, que estampava as iniciais CPX, fazendo associação ao tráfico - Ricardo Stuckert

Se tornou alvo de fake news o boné usado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante uma caminhada de sua campanha realizada no Complexo no Alemão, na zona Norte do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (12).

Apoiadores do candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) estão compartilhando fotografias de Lula com o boné, que estampava as iniciais CPX, fazendo associação a uma facção criminosa envolvida com o tráfico de drogas. As postagens entraram para os trending topics no Twitter nesta quinta-feira (13).

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A sigla CPX, vista principalmente na internet, para simplificar a digitação, é usada por moradores e por órgãos oficiais para se referir a regiões do Rio que contam com um grupo de favelas, como Complexo do Alemão, por exemplo, que é grafado como CPX Alemão.

Para moradores das favelas cariocas, que conversaram com o Brasil de Fato, a fake news é duplamente perigosa: primeiro porque espalha uma mentira, segundo porque reforça a imagem da favela associada ao tráfico. 

“Estão acostumados a nos olhar sempre pela mira de um fuzil. Infelizmente pra eles, só prestamos quando estamos os servindo. Quando voltamos para o nosso lar, nossa favela, somos criminalizados”, afirma Camila Aparecida dos Santos, moradora do Complexo do Alemão.

Ela complementa que a fake news está relacionada à resistência da sociedade em aceitar avanços conquistados pelas populações das favelas no combate ao racismo e ao preconceito.

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“Deve ser muito difícil aceitar que somos potência e que somos nós quem carregamos esse país nas costas. Deve ser muito difícil aceitar, que mesmo em passos lentos, estamos vencendo o racismo e outros preconceitos que nos limitavam. Deve ser difícil aceitar tanta gente preta e favelada ocupando espaços de poder para mudar a vida de tantos outros pretos e favelados”, explica.

Já Gizele Martins, moradora do Complexo da Maré e comunicadora popular, destaca que a fake news criminaliza a favela, seus moradores, suas roupas, sua cultura e sua forma de existência. 

“É muito louco, como se tudo o que a gente é ou a gente vive fosse do varejo de drogas ou estivesse ligado a isso. A sociedade precisa entender que a favela existe para além de qualquer força armada. Precisa reconhecer a favela pelo o que ela é. Respeitar nossos nomes, nossa cultura, nosso funk, nosso jeito de falar, nossa identidade de sobrevivência. Precisam parar de enxergar a gente como o outro que precisa ser o tempo todo criminalizado pela roupa, pela fala, pelo nome. A gente é. A gente existe”, conclui.

Edição: Eduardo Miranda