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Encontros e reencontros

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Neste dia das mães, devido ao isolamento, muitas mães devem receber homenagens via videochamadas - Freepik
Feliz Dia das Mães a todas as mamães, a minha, a de todas e todos, a de todo mundo

À mamãe Lúcia e a todas as mamães

Domingo, final de abril, mamãe Lúcia, 93 anos, levanta pelas oito horas. Ela chega na cadeira de rodas, conduzida pelo mano mais novo, Marino, que mora com ela. Quando me vê, me dá os parabéns e me entrega um presente, uma camisa, também em nome da mana Elma. Estou de aniversário em ‘tempos de cólera’.

Quantas vezes isso aconteceu em minha vida!!!??? Talvez dê para contar nos dedos (não contam os primeiros dez anos, quando eu morava com ela e não se ganhavam presentes, porque eram muitos filhos, três nascidos no mês de abril). Há 58 anos não convivemos dois meses seguidos, como está acontecendo em 2020, no meio da praga do coronavírus.

Confesso que não está sendo fácil. Estou aprendendo a conhecer, e entender, a família de nascença que tenho, agora acompanhada da cuidadora de mamãe. Por um lado, o necessário isolamento. Por outro, histórias, pensamentos, mundos diferentes entre meus irmãos e eu, além da convivência diária em ritmos e urgências diferentes no cotidiano. Quando os manos mais novos nasceram, eu já estava no Seminário dos franciscanos em Taquari (RS). E há 58 anos nunca mais convivemos de forma mais permanente. Para minha alegria e conforto, mamãe, indo para o ocaso da vida, quer a minha presença o tempo todo, conta histórias das antigas, rememora a sua viagem a Lábrea (AM), onde mora o mano Astor, lembra do seu pai e mãe, meus avós, que visitávamos a pé, uns 8 km de distância, de quando se vivia à base do lampião e da vela, entre outras lembranças.

Assim está sendo com muita gente. Enquanto isso, e ao mesmo tempo, as conversas virtuais estão se multiplicando. Outro dia, a equipe da Secretaria-Geral da Presidência da República resolveu se reencontrar via WhatsApp. O sempre ministro Gilberto Carvalho escreveu sábias e bondosas palavras, depois de conversas por rede social e de rever fotos e mais fotos: “Seus fias das putas, assim vocês matam o Véio do coração. Meu Deus, que saudades absurdas vendo estas fotos, e relembrando de cada uma e de cada um de vocês! Como é que foi possível juntar tanta gente boa de coração, generosa e competente. Acho que nunca mais vou encontrar um time assim... Por favor, se preservem, vocês têm uma missão grande ainda para cumprir pelo nosso povo!!!”

São tempos de distanciamento social e familiar. No interior do interior, onde estou, não acontecem bailes da terceira idade, campeonatos de bocha, futebol, jogos de cartas no salão, não tem missas, cultos e devoção. Tudo absolutamente parado. Mas há também momentos outros de encontros e reencontros, felizmente, em especial via redes sociais. Muita gente que se perdera na vida, que não sabia mais um do outro, agora não só está ouvindo a voz, mas está vendo as rugas, o envelhecimento, o cansaço com tudo que está acontecendo, junto com a alegria da troca de palavras e da conversa.

Pais e avós não podem ver fisicamente filhos e netos. Não podem abraçá-los. Sentem mais saudade que nunca. Mas se (re)encontram, às vezes de forma até mais profunda. Finalmente conversam de fato, com intensidade e sinceridade. Ao mesmo tempo, milhares de mães choram as mortes dos seus filhos. Milhares de filhos e netos choram as mortes de suas mamães e papais. Como alguém, sem alma, sem coração, sem cuidado, sem ternura, presidente da República (!!!!???), pode dizer ‘e daí?”, quando são vidas, histórias que se vão, para nunca mais voltarem?

O outro, a outra, podem ser inimigos, adversários, nestes ‘tempos de cólera’. Mas podem também, e são, cada vez mais, companheiras, companheiros. Mil grupos de conversa e solidariedade estão sendo formados. Discutem a conjuntura, realizam ações solidárias, organizam a luta, refrescam o pensamento. Leituras acompanham os passos e o dia a dia, livros empoeirados estão saindo das prateleiras, uma reflexão mais profunda e estratégica floresce.

O tempo às vezes parece não passar. Mas dá tempo de olhar as estrelas no céu, as flores do jardim. No Rio Grande do Sul, com a maior seca das últimas décadas, enxergar com dor a grama amarela, os açudes secando, os peixes morrendo, os caminhões-pipa levando água para quem está precisando, as plantas e a natureza sofrendo.

Como vamos, todas e todos, sair disso tudo depois que tudo acabar? Mais solidários? Mais atentos às dores de quem está ao nosso redor? Veremos mais quem está sofrendo, teremos compaixão de quem, ao nosso lado, está passando fome, quem está precisando de cuidados, de um abraço, de um sorriso, de uma palavra? Seremos mais humanos?

Enquanto os do lado de lá, os ditadores disfarçados, ou reais, os que se lixam para o povo sofrido brigam a tapa e soco entre eles, nós, os do lado de cá, nos beijamos, nos abraçamos, mesmo que simbolicamente, pela internet ou outros meios de comunicação, ou mesmo no pensamento. Somos mais solidários, compreendemos a dor, o sofrimento e, de alguma forma, conjugamos o verbo esperançar de Paulo Freire.

É preciso se abraçar na base popular, na vila da periferia, nas comunidades, especialmente com os mais pobres entre os pobres, sair do casulo, esquecer um pouco da alta política e filosofia, sem desprezá-las. Ouvir, ouvir, ouvir muito, escutar, aprender, (re)aprender, inclusive com as mamães e sua sabedoria. Nem tudo são espinhos à margem da estrada.

É fundamental analisar com profundidade a conjuntura política, econômica, social, cultural, ambiental, buscar saídas e novos caminhos. Mas sem esquecer que homens e mulheres, jovens e idosos, trabalhadoras e trabalhadores fazem parte desta conjuntura e do futuro.

Neste Dia das Mães, está mais difícil comprar presentes, seja por problemas de poder circular nas ruas, seja por falta de dinheiro por causa da queda de renda e do desemprego, crescentes. O mais importante, porém, não são os presentes. O mais importante é saber e dizer que se está junto, que sabemos compreender as eventuais diferenças e divergências, reaprender a conviver, sem ódio, sem intolerância, sem rancores, sem preconceitos, sem intransigências. Querer bem, cuidar uns dos outros, ser solidários, ser amorosos. Amar, somente amar.

Feliz Dia das Mães a todas as mamães, a minha, a de todas e todos, a de todo mundo.

Edição: Marcelo Ferreira